26 de jul de 2010

Visão Remota, uma "Verdade Científica"

Há algum tempo atrás, num debate sobre razão versus fé, uma pessoa citou as palavras do nosso filósofo mais senil e irritadinho do Brasil. Segundo Olavo de Carvalho (embasado num livro que comentarei num próximo post), estudos comprovaram a veracidade de algo chamado "visão remota".

Como eu nunca tinha ouvido falar, fiquei curioso. Fui pra casa, pesquisei e depois escrevi um email para o meu grande amigo que, para o meu desgosto, ainda dá ouvidos ao velho Olavo. Escrevi o seguinte:



Hoje fiz uma breve pesquisa sobre visão remota que incluiu ler textos dos defensores da idéia ( http://www.remoteviewing.com/ ), palestras no youtube (de um tal de Dr Simeon Hein) e depois ler a argumentação contra: http://www.skepdic.com/remotevw.html.

Vendo os primeiros videos sobre o assunto já dá pra ter uma idéia do que se trata. É um blá-blá-blá exotérico que mistura terminologias de física quântica e psicologia com a maluquice de pessoas obcecadas por OVNIs.

Vê? Esse é o problema de se guiar pela intuição: "intuitivamente eu aceito o Olavo de Carvalho como uma autoridade intelectual pois me identifico com seus protestos". E esse mesmo fluxo intuitivo te leva a aceitar como verdade alguns absurdos sem nenhuma comprovação fatual (ou com uma comprovação muito obscura e impossivel de testar) que ele afirma serem verdade.

O Dr Simeon Hein diz "o inconsciente não mente, por isso que eles não querem que você saiba desta verdade". Essas crenças malucas, como as do Olavo, têm de sempre ser acompanhadas por teorias conspiratórias igualmente não-provadas e completamente parciais, porque é o único jeito de estas mentes semi-inteligentes acomodarem dentro de si as contradições inerentes a estas loucuras.

Os principais defensores da Visão Remota dizem que a CIA tem uma campanha para desacreditar esta "verdade científica", para evitar que o grande público obtenha para si os poderes que esta prática pode trazer. Até porque eles dizem que QUALQUER UM pode adquirir esta habilidade com o treino (seria o fim da privacidade humana).

Aqui está um pequeno trecho que eu traduzi do link ali em cima (do site skepdic.com):

O fato de que estes experimentos foram conduzidos no mesmo laboratório, com o mesmo protocolo básico, usando os mesmos observadores ["observador" aqui no caso é a pessoa que vai a um local distante para "transmitir" o que está vendo/sentindo a um "receptor" que está no laboratório descrevendo as visões] e os mesmos investigadores agrava, ao invés de aliviar, o problema da replicação independente. Se houverem falhas sutis no protocolo, a própria consistência dos elementos como alvos, observadores, investigadores e procedimentos dentre experimentos aumenta a possibilidade que estas falhas se acumularão.

Tornando a questão ainda pior está o uso do mesmo juíz em todos os experimentos. A avaliação das respostas do observador é um fator crítico em experimentos de resposta livre com visão remota. Ed May, o principal investigador, como eu entendo, tem sido o único juíz em todos os experimentos de resposta livre. A respota de May para este procedimento incomum foi que ele está familiarizado com o estilo de resposta dos indivíduos observadores. Se um observador, por exemplo, fala sobre pontes, May - de sua familiaridade com o observador - pode entender que o observador usa pontes para se referir a qualquer objeto sobre a água. Ele pode então interpretar a resposta da forma apropriada para se igualar ao alvo. Qualquer que seja o mérito que esta resposta tenha, ela resulta em um ambiente metodológico que viola alguns princípios chave da credibilidade científica. Alguém pode argumentar que o juíz, por exemplo, deveria ser cego não só em relação ao alvo correto, mas também sobre a identidade do observador. Mais importante, a comunidade científica de longe estará relutante em aceitar evidências que dependam da habilidade de um indivíduo específico. Por causa disso, o uso do mesmo juíz para todos os experimentos de resposta livre é como o efeito experimentador [O "efeito experimentador" é um termo usado para descrever qualquer uma de inúmeras pistas sutis ou sinais de um experimentador que possam afetar a performance ou resposta dos sujeitos na experiência. As pistas podem ser inconscientes e não-verbais, como tensão muscular ou gestos. Podem também ser pistas verbais como alterações no tom da voz.]. Num cenário em que os resultados dependem de um único investigador, surge a questão da objetividade científica. Provas científicas dependem da habilidade de gerar evidências que, im princípio, qualquer investigador sério e competente - independente de sua personalidade - possa observar. (Hyman 1995)

O relatório concluiu que a visão remota era de pouco valor e a CIA desativou o programa.

Outra coisa que eu acho impressionante é a naturalidade com que os defensores da idéia tratam a questão. Ora, se a visão remota é verdade, é uma verdade importantíssima! Todo o resto das ações e do conhecimento humano são muito pouco comparados à possibilidade de cada um ter acesso direto à qualquer posição do universo. Pense bem, esses malucos dizem que todo o conhecimento presente e passado está armazenado na "livraria do inconsciente coletivo" e que através da visão remota é possível acessá-lo!!! Todas as outras formas de busca de compreensão da realidade seriam ridículas!

Todo esforço de obtenção de conhecimento do próprio senhor Olavo de Carvalho até hoje teria sido inútil para ele próprio se ele realmente acreditasse em visão remota.

É por isso que eu bato nessa tecla, as próprias atitudes dessas pessoas contradizem o que elas dizem acreditar e cada vez que vou investigar alguma coisa que esse tal de Olavo diz, descubro que é uma afirmação tosca com uma lógica porca e um embasamento inexistente. Como dar alguma credibilidade intelectual para alguém que fala tanta besteira?

6 comentários:

Alberto disse...

Bem didaticamente: o moto da religião é a fé. E fé é acreditar naquilo que não se vê - a fé é garantia das coisas que se esperam e certeza daquelas que não se vêem, diz Paulo. Inútil procurar ciência na religião.

Rodrigo Guarapuava disse...

É interessante como os cientistas tratam assuntos metafísicos com tamanha leviandade.
Os "seres" que se julgam conhecedores da verdade já vêm tentando descobrir desde 1933 o que é a bendita matéria/energia escura (rsrsrs tenho que dar risada... e sem ironia). Sabem que existe, mas não é possível identificar sua composição, detectá-la, sequer visualizá-la. Como é possível assegurar com tanta convicção que a paranormalidade não existe? Vários casos de investigação nos EUA foram elucidados com a ajuda de pessoas que dispunham de uma visão "um pouco mais aguçada" do que outras pessoas.
O que é mais real, a paranormalidade ou a matéria escura?

Keith disse...

Antes de Einstein e a teoria da relatividade todos pensariam que quem dissesse que um elétron não era a menor partícula, ou que ele era ao mesmo tempo uma partícula e uma onda, acharia isso um absurdo heresia contra as leis naturais etc. hoje inclusive a dualidade da pertícula-onda é cobrada em escolas.
Agora me responda se uma partícula é uma massa que se encontra em um volume específico e uma onda é uma energia que tem um comportamento toralmente diferente de partículas como o elétron pode ter os dois ao mesmo tempo? Ninguém sabe como, só que é assim.
Quando ganharmos conhecimento o suficiente sobre o mundo microscópico teremos que jogar fora a Física Newtoniana para gerar uma Física unificada.
Da mesma forma hoje é matemáticamente provado que existem diversas dimensões, porém com os instrumentos atuais seria impossível saber o que existe nelas pois elas não necessáriamente seguiriam os padrões nossos (lembre-se que nós usamos o sistema Euclidiano para medir nosso espaço tridimensional).
Nunca se esqueça que nós seres humanos somos tricromátas, o rosa, laranja, amarelo, violeta entre outras para nós não existe, é somente um artifício cerebral para interpretar o mundo ao redor, as únicas cores existentes para nós são Verde, Azul e Vermelho.
Quanto aos termos de não reproductibilidade, isso já é aceito na Física Quântica, por isso se diz que em um elétron ou se mede o momento ou a velocidade, é impossível medir os dois pois qualquer um muda o outro de forma 100% imprevisível.
PS: Tenho formação em engenharia química e esses assuntos da física quântica foram cobrados no curso.

Anônimo disse...

Keith, perfeito o seu argumento.

ANTI-MOFO disse...

Olavo de Carvalho é um débil mental.

ANTI-MOFO disse...

Olavo de Carvalho é um débil mental.

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